Esta é uma história incrível envolvendo um picolé de fruta da Bapka, um gari e o escritor de graffiti Bolacha. Está registrada em forma de arte no muro de esquina da rua Getúlio Vargas com a Conselheiro Laurindo, no centro de Curitiba.

Se você passar por lá, verá a pintura de um gari com um picolé de fruta da Bapka na mão. Ao fundo, construções típicas de Curitiba, como o “Museu do Olho”. E uma rua limpinha continuando sempre limpinha graças ao trabalho de um gari que leva um saco de lixo ao caminhão de coleta.

Quem olha o painel, logo pergunta: por que gari com picolé? Por que picolé de fruta da Bapka? Quem é o Bolacha que assina o graffito? Será que foi pago para fazer propaganda da marca?

Parece incrível, mas não, não foi propaganda! A Bapka soube do painel em meados de abril de 2018, por intermédio de fãs da marca que fizeram todas as perguntas acima e postaram comentários sobre a “grafitagem”.

Então resolvemos descobrir quem é o Bolacha e por que ele pintou o gari com o picolé de frutas. E chegamos a esta incrível história…

Que tal um picolé de fruta num dia de verão?

Tudo começou no dia mais quente de 2014, quando duas garotas compraram picolés de frutas da Bapka. Encheram um isopor e saíram pelas ruas de Curitiba distribuindo os sorvetes aos garis. A boa ação saiu na TV Globo e no site da Prefeitura de Curitiba, que postou na internet esta foto:

Picolé de frutasQuatro anos depois, o escritor de graffiti João Paulo Rotava – o Bolacha, resolveu fazer uma homenagem aos trabalhadores que deixam a capital paranaense sempre limpa. “Eu fico com uma pena deles, tenho esse aperto de ver eles trabalhando de madrugada, chovendo… e faz tempo que queria fazer essa homenagem” – explica. Para ele, limpeza é a marca de Curitiba e o que faz dela a melhor cidade do Brasil.

O painel em homenagem aos garis da capital levou dois dias para ficar pronto. Foi finalizado em 15 de abril de 2018, durante o Street Of Styles, encontro internacional de graffiti realizado anualmente em Curitiba.

Bolacha foi um dos 300 artistas que participaram do evento espalhando cores pelos muros tristes da capital. “Eu utilizo cerca de 60 a 80 latas de spray nos meus graffiti, por causa da quantidade de cores. Não chego a usar a lata inteira, mas tenho uma palheta de 150 cores pra utilizar num trabalho” – conta.

Como o picolé de fruta foi parar no graffiti?

Há vários estilos de graffiti. Há quem pinte letras e os que prefiram trabalhar com personagens. Há também o estilo caráter, no qual o artista cria o próprio personagem, como uma assinatura pessoal.

E há ainda o realismo, onde fotografias são manipuladas em computador, impressas e reproduzidas nos muros e paredes. Esse é o estilo de Bolacha, que procurou na internet a foto de um gari para montar o projeto do seu painel para o Street Of Styles 2018.

É aqui que a mágica acontece… Quando convidamos Bolacha para contar essa história, descobrimos que ele é um artista que, além de talento, possui dons premonitórios. Ou, no mínimo, uma enorme intuição.

Picolé de FrutasPerguntamos por que ele havia pintado o picolé de fruta da Bapka. Bolacha contou que para fazer seu realismo, encontrou a foto do gari na internet. Era uma imagem pequena, em baixa resolução. “Tava bem visível o picolé. Só que não dava pra ver a marca”. O artista pensou, então, em utilizar uma marca local, já que o painel prestigia a cidade. E lembrou logo da Bapka: sorvete genuinamente curitibano. “Porque eu gosto de valorizar um pouco da cultura de Curitiba”, disse.

Foi aí que contamos a ele o caso das meninas que distribuíram picolés de fruta aos garis em 2014. E mostramos a foto original do gari com o sorvete na mão. Só então o artista descobriu que a marca da foto era mesmo Bapka:
— Agora que eu vi! — exclamou. — Eu até mudei a embalagem. Pesquisei no celular na hora e falei: “ah, marca de Curitiba mesmo é a Bapka”. Eu peguei no celular a marca e fiz ela inteira!

Rimos muito ao descobrir que Bolacha havia pintado o sorvete Bapka sem saber que essa era mesmo a marca distribuída aos varredores de rua quatro anos antes.

Um muro além do tempo

Foi assim que, num muro de Curitiba, um gari, um picolé de frutas da Bapka e o Bolacha se cruzaram com a história de duas meninas distribuindo sorvetes, num dia de verão em 2014. Quatro depois, um conto curitibano feito de tinta, grafitado com a arte do Bolacha…

Ah! Para que quem ficou curioso: quando menino, João Paulo andava de skate vendendo as bolachas caseiras que sua mãe fazia. Assim surgiu o apelido “Bolacha”, que ele odiava e, por isso mesmo, pegou. E foi do skate para a pichação, da pichação para o graffiti… E do graffiti para o mundo, pintando a mensagem: aqui em Curitiba não é biscoito, é Bolacha (instagram@obolacha). Varredor é gari. E picolé de fruta é Bapka!